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Barão de Grajaú - MA

Atualizado: Abr 30

(24/10/2018)


Partindo de Mirador continuamos no sentido oeste. Nossa busca agora era pela Caatinga. Há quem diga que no Maranhão não exista este bioma, mas tínhamos que conferir pessoalmente. Ao nos aproximarmos da cidade, já se fazia noite. Com os vidros abertos da “Valente”, era possível sentir as baforadas de ar quente que vinham em nossa direção pelo deslocamento de ar dos veículos que vinham na direção contrária. A fronteira com o Piauí estava logo ali na frente, bastaria atravessar a ponte sobre o “Velho Monge” – o Rio Parnaíba.


Nos refugiamos numa pousada bastante modesta mas acolhedora. Com os corpos cansados da viagem, o principal naquele momento era descansar. No dia seguinte, pela manhã nos ocupamos em ajustar e limpar os equipamentos. Mais uma cidade que não conseguimos informação alguma. O jeito era agir por conta e desbravar. Junto à proprietária da pousada fomos tentando esclarecer ao máximo nossas dúvidas e ao mesmo tempo, explicar o porquê estávamos ali. Certos de que ela não entendia a razão de alguém vir de tão longe para a fotografar árvores e terra seca – palavras dela.


Com uma boa ideia do que poderíamos encontrar buscamos rumo. Sim! Existe Caatinga no Maranhão. Tiramos esta prova sob um calor de 38 graus. O calor era tão intenso que o suor de nossos corpos simplesmente evaporava. Verdade! Nós sofremos muito com o calor. Geralmente nossas roupas ficam encharcadas de suor. Ali simplesmente, tudo sequinho, mas parecia que iríamos entrar em combustão. Pensamos em sair logo após o almoço pois seria necessário explorar o lugar e encontrar a composição perfeita, mas o sol judiou. Tivemos que nos abrigar sob umas rochas no campo e aguardar. Quando o sol deu uma trégua, seguimos em frente. Foram muitos os detalhes. A vegetação seca e espinhenta, aparentemente morta, era vida pura e verde por dentro. A Caatinga estava ali, em toda a sua resiliência, disposta a “posar” para o ensaio perfeito sob a luz mais que original. Evandro sentiu naquele momento a falta de algo naquele meio. Um personagem que ainda está presente no sertão nordestino, o vaqueiro de couro. Quem sabe ainda seria possível encontrar. Era hora de voltar. No retorno encontramos rios completamente secos por sob as pontes. Apenas as rochas à mostra, deitadas por sobre a areia escaldante, esperando pelas chuvas que chegarão no inverno para lavar e refrescar do ardor.

Uma paisagem incrível. Um verdadeiro paradoxo de vida. Como pode algo sobreviver a tanto calor e desertificação e voltar a vida com apenas umas poucas gotas de chuva e nos da a impressão que não sofreu um castigo tão severo? Alguns rios conseguem sobreviver a tanta estiagem e configuram um ambiente rico e belo. Conseguimos encontrar alguns desses rios pelo caminho e sentir toda a vida que é mantida em seu entorno. Ali é fácil perceber como a humanidade estará condenada se insistir na devastação, que só se faz aumentar.

O sol se pôs. As primeiras estrelas já brilhavam quando estávamos a caminho da cidade. Uma imagem desoladora se mostrou, uma grande queimada consumia com voracidade aquela vida que resiliente, tentava sobreviver à estiagem. Infelizmente, as queimadas são uma prática comum por essas bandas, seja criminosa, ou praticada pelo próprio agricultor familiar como parte de uma cultura que vem de pai para filho. De volta a pousada, Evandro relatou nossa aventura daquele dia e do que sentiu falta no campo, o vaqueiro de couro. Para surpresa, ela nos informou que o seu irmão era vaqueiro e que tinha o traje completo, o Gibão. Prontamente ela intermediou o contato e pronto, no dia seguinte ele estaria conosco para colaborar com o trabalho e assim se fez, na manhã seguinte.

Eram oito horas da manhã quando a camareira bateu à porta do nosso quarto informando que o cavaleiro estava ali. Fomos logo ao encontro dele, pois era necessário programar logo, só tínhamos mais aquele dia para permanecer por ali. Logo que chegamos ao estacionamento, lá estava o seu Agenor, não para combinar, mas para ser fotografado. Estava montado e todo trajado com o Gibão. Fiquei impressionado, afinal era a primeira vez que via um legítimo “Vaqueiro de Couro”. Sem muito tempo para planejar algo, Evandro pegou logo o equipamento e fomos a campo para o ensaio. O lugar não era bem o que havíamos pensado. Evandro queria o vaqueiro inserido na Caatinga, mas, era o que tinha para o momento. O resultado sou suspeito para julgar, gostei muito, mesmo que num primeiro momento acreditava que o local não era o ideal. Eu estava enganado. Ainda bem! E assim encerramos os trabalhos em Barão de Grajaú com a certeza de missão cumprida. Desta vez o Universo conspirou a nosso favor.

(Texto Edemar Miqueta)


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