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Centro Novo do Maranhão - MA

Atualizado: Abr 30

(07/12/2018)


E aqui chegamos ao destino final da nossa expedição. O cansaço pegou, e pegou pesado. Realizar um trabalho desses você deve imaginar, não é fácil. São muitos dias longe de casa, da rotina de se ter uma casa. A rotina, hotel-estrada-campo, no decorrer de vários dias se torna um fardo, que se você não estiver muito centrado no que quer, abandona.

Enfim, chegamos a Centro Novo do Maranhão – terra dos Ka’apor – Povo da Floresta. Preocupados, inicialmente por conta da nossa experiência negativa com os Canela no Parque do Mirador, logo nossas preocupações foram apaziguadas pelos relatos de Luiz Capim (Vice-Prefeito), Marina Oliveira (secretária de turismo) e Luana Oliveira do departamento de turismo de Centro Novo do Maranhão.

Em Centro Novo do Maranhão, a relação do poder público com os indígenas já é uma situação resolvida. Não há mais conflitos e o cooperativismo é mútuo em todas as situações, principalmente nas questões de segurança, infraestrutura, educação e saúde das comunidades indígenas da região. O vice-prefeito Luiz Capim nos deixou a par de todas as ações que são realizadas pela prefeitura municipal junto às comunidades. Informações que nos deixaram muito satisfeitos. Queríamos mesmo, era ver tudo isso de perto. E foi o que a comitiva da prefeitura municipal se propôs a nos mostrar. Seriam quatro dias de incursão pelas terras dos Ka’apor. As distâncias bem consideráveis, levando-se em conta que seriam percorridos cerca de 400 quilômetros por estradas de terra, floresta adentro. A equipe da prefeitura municipal foi composta pelo vice-prefeito Luiz Capim, pelo secretário de meio ambiente, José Ribamar Soares Fontes – Zeca da Praia (natural de Carutapera), por Luana Oliveira do departamento de turismo e por Julia Gomes do departamento de saúde assistência social.

Acompanhados pela comitiva da prefeitura municipal, partimos de Centro Novo logo cedo. Nosso destino seria a Aldeia Ka’apor Paracuy-Rená. Iniciamos um trajeto de 200 quilômetros pela rodovia até que tomamos uma estrada de terra, a princípio muito boa. Uma viagem longa para chegarmos até os limites para adentrar a aldeia. Ao final da tarde chegamos à Aldeia Ka’apor Paracuy-Rená. No centro da aldeia uma escola indígena, projeto do governo federal, chamada Jadenu’Eharendá. Ali encontramos com Ivan Nery, coordenador de educação que atua junto às aldeias Ka’apor de Centro Novo do Maranhão (são 6 aldeias no todo).


Os Ka’apor, assim que adentramos a aldeia vieram ao nosso encontro. Curiosos e risonhos (acho que éramos o motivo da graça) foram muito receptivos. Havia um grupo grande de crianças, mais tarde, o cacique Xuperá nos contou que são 82 curumins na aldeia. As crianças Ka’apor aprendem primeiro, o idioma da etnia e somente aos nove anos de idade, que aprendem o português. Muitos dos pequenos falavam conosco o tempo todo, sem que entendêsse-mos uma palavra sequer.


Espertos e ágeis e muito, muito curiosos. O sol já estava querendo “baixar” quando decidimos que iríamos seguir para a próxima aldeia, na qual passaríamos a noite, mas o cacique não quis que deixássemos a aldeia naquela noite. Queria que pernoitássemos por ali. Respeitando sua vontade e, ficamos. Quando montamos nosso acampamento, um pequeno grupo dos pequenos ficou de olhos atentos a tudo o que fazíamos. Queriam ajudar e conhecer o que trouxemos (barracas, colchões infláveis e outros). A vida na aldeia tem uma rotina muito tranquila.


Não há barracos ou ocas ou cabanas, mas sim casas. Também tem energia elétrica que funciona graças a um gerador que é acionado as 18hs e fica até as 22hs. Há também uma antena que recebe sinal de internet via satélite. Há wi-fi na comunidade. Pelo que observei, todos dormem em redes, dispostas mesmo do lado de fora das casas, nos alpendres. Há segurança que é feita pelos próprios Ka’apor, trata-se de uma força de defesa contra a invasão de madeireiros e caçadores. São jovens da comunidade, selecionados para compor esta força de defesa, são armados e treinados. Um desses jovens é Mera té ka’apor, tem muito orgulho por ter sido selecionado para proteger seu povo, e o fará com muito esmero, perícia e coragem. Naquela noite, tivemos visitas ilustres em nosso acampamento, eram morcegos frutíferos que moravam nas dependências da escola. Como nós eramos os invasores ali, tudo certo!

Já pela manhã, bem cedo. Vi um grupo de meninas se dirigindo ao campo com umas panelas e jarros nas mãos. Fiquei curioso para ver o que estavam a fazer. No campo num pequeno cercado, havia algumas vacas. As meninas, com muita agilidade ordenhavam o leite que faria parte do café da manhã da família. Na noite anterior, o cacique havia dito que designaria um de seus melhores guerreiros/caçador para que nos acompanhasse floresta adentro para que pudéssemos conhecer como caçavam. Tratava-se de Xuperá Ka’apor, exímio guerreiro e caçador. Xuperá nos exibia com orgulho a sua espingarda feita com Muiracatiara, realmente linda muito bem cuidada. Juntamente ao experiente guerreiro juntaram-se mais dois jovens que fazem parte da força de segurança da aldeia. Na mata, todos exibiam seus talentos para a caça, os cuidados e o respeito para com a floresta. Ali não foi possível realizar boas fotografias. Tivemos a oportunidade de ver grupos de macacos e aves pelo caminho, mas sem dúvida que seria necessário muito mais tempo. A tão aclamada “espera” que faz da fotografia um exercício de paciência, quase uma meditação. Quatro horas mais tarde, já encharcados pelo suor, voltamos à aldeia. Era momento de deixar Paracuy-Rená, nossa jornada estava apenas começando. Nosso próximo destino era a aldeia Xiepi’Hurená, cerca de 35 quilômetros adiante. Nós e a comitiva de prefeitura desarmamos acampamento, nos despedimos da liderança e do povo e seguimos.


Em Xiepi’Hurená a estrutura da escola era a mesma de Paracuy-Rená, a diferença é que ali havia um posto de saúde e uma enfermeira de plantão. Encontramos também um jovem antropólogo, Gustavo Godoy, que está realizando estudos e desenvolvendo sua tese de doutorado – ele faz parte do Núcleo de Pesquisas Linguísticas e Estudos em Antropologia, é doutorando pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Museu Nacional.

Esta comunidade tem uma organização muito semelhante com a anterior, na verdade, todas as seis comunidades que compõem os Ka’apor em Centro Novo do Maranhão tem o mesmo modelo de sociedade. Na aldeia fomos recebidos de imediato pelo cacique Karairana Jaxi Pire (Casca de Jabuti) que nos explicou como tudo funciona por ali, sua organização, seus costumes e vivências, problemas e preocupações. Num primeiro momento, solicitou uma “audiência” com o vice-prefeito e a comitiva da prefeitura municipal de Centro Novo do Maranhão, aonde apresentaria reivindicações e demandas da comunidade. Nesta audiência, não participamos. Logo após, o cacique nos convocou – “logo mais a noite, haverá uma apresentação de danças e cantos dos Ka’apor, vocês devem estar aqui”! – E perderíamos por algum motivo? Claro que não! Naquela noite tivemos a oportunidade de presenciar o que são os Ka’apor, este povo da floresta que dança e canta suas histórias. Que apesar de todas as dificuldades enfrentadas (que são muitas, principalmente em relação aos invasores), mantém viva a sua cultura. Durante toda aquela festa, era servido (somente para os Ka’apor) o Xibé, uma mistura de farinha puba com água, servida numa cuia numa porção bem generosa e individual. Somente uma pessoa da comunidade é designada a encher a cuia e levar para quem vai consumir. Assim, o Xibé é servido um a um, para toda a comunidade que, bebe a mistura com muita vontade. Para quem já provou, diz não ter gosto algum, que é um alimento para “encher” o estômago e enganar a fome. Logo após as apresentações, que foram uma verdadeira festa, nos pediram que pudéssemos levar as imagens dos Ka’apor para além das fronteiras e que, disséssemos ao mundo, que eles estão com as portas abertas para receber a todo aquele que quiser conhecer o “Povo da Floresta”.


Todo aquele que visita a aldeia Ka’apor, deve ser “tatuado”. As jovens índias da aldeia fazem uma pintura na pele, com o leite da fruta do jenipapo verde. É um trabalho delicado. De início pensei que não iria aparecer nada. Mas não demorou muito para que os traçados feitos pela jovem indígena começassem a se firmar em minha pele. Audacioso, havia pedido que ela desenhasse também em meu rosto. Só mesmo no dia seguinte é que fui perceber o que havia pedido... (a “tatuagem” fica na pele por cerca de uma semana).

Na manhã seguinte, uma nova surpresa. As índias nos trouxeram muitos artesanatos para que pudéssemos apreciar e, principalmente, comprar. De fato era tudo muito lindo. Sou suspeito a falar sobre isso, pois esses trabalhos manuais sempre me encantam. Trouxe um colar feito com Pariri Os Ka’apor são muito talentosos. Mais uma vez era hora de seguir. Naquele mesmo dia deixamos a aldeia Ka’apor.

No percurso de volta, passamos na Fazenda Nova Esperança, que faz fronteira com as terras indígenas dos Ka’apor, de propriedade de Edson Carvalho Neves (Edson Baiano), sogro de Ivan Nery, que nos recebeu prontamente e nos hospedou nas dependências da fazenda. A ideia era que, da fazenda iríamos percorrer pelo rio Gurupi. Já na entrada uma placa chamava a atenção para a comicidade das informações. Logo depois do almoço, nos preparamos para seguir pelas margens do Gurupi. Difícil descrever tamanha beleza. A expectativa de encontrar uma onça em suas margens não saía de nossas mentes. Mas infelizmente, não foi desta vez. Subimos o rio. Todos na pequena embarcação se encontravam num misto de deslumbre e êxtase. O sol aos poucos foi sendo encoberto por nuvens carregadas e não demorou para que uma chuva intensa caísse sobre nossas cabeças. O sentimento naquele momento era como se estivéssemos num filme de aventura, daqueles em que os exploradores passariam pelos maiores desafios para encontrar o “El Dourado”. Sério! Era bem assim que estava me sentindo. O Gurupi é lindo. A floresta amazônica nas margens do rio cria um ambiente primitivo. Os equipamentos já haviam sido guardados por conta da chuva torrencial que caía sobre nós. Era momento de voltar.

Decidimos encerrar por ali nossa expedição. Simples assim? Terminou? Estranho, mas é isso mesmo. Ali nos limites dos Ka’apor, a Expedição Maranhão Profundo encerrava. Porém, havia ainda 400 quilômetros de estrada de terra (barro) para serem percorridos no trajeto de volta até Zé Doca, aonde nos organizaríamos para o retorno a São Luís, a capital do Maranhão e posteriormente, o regresso para casa, em Santa Catarina. Ainda na Fazenda Nova Esperança, paradinha no meio do terreno, a Valente resolveu surpreender: estourou a barra de torção – peça responsável por parte da suspensão -; Não havia outra opção, teríamos que seguir viagem assim mesmo. A Valente meio perneta, andando um tanto de lado, vamos lá!!! Seguimos em velocidade muito reduzida. A comitiva da prefeitura teve muita paciência para nos esperar por todo o percurso. Estrada bastante difícil e com problemas na suspensão, não foi uma viagem fácil. Já altas horas da noite, quando enfim chegamos à rodovia que daria acesso aos nossos companheiros de viagem a volta para Centro Novo do Maranhão e para nós, até Zé Doca. Ali mesmo, num posto de gasolina foi a nossa despedida. Aquele sentimento estranho, de deixar algo para trás assolou nossos espíritos novamente. Foram tantos encontros seguidos de despedidas. Pronto! A expedição propriamente dita acabara. O cansaço era grande, a vontade de estar em casa, maior ainda; porém, estava chegando ao fim um sonho realizado. Nunca pensei que seria capaz de realizar algo assim. Agora mesmo, escrevendo estas linhas a emoção toma conta de um jeito... foi sim! Foi muito bom. Tanto aprendizado, tantas vidas, tanta coisa. Tanto calor, sede mas por outro lado, tanta beleza! Maravilhas que o Universo preparou para esses dois calouros da vida. Muitas coisas sem dúvida alguma não estão descritas aqui nestas linhas. Agradeço ao Universo e a todos os amigos que fizemos, a oportunidade de ter vivido esta experiência. O sonho inicial findado, agora se expande para outros movimentos da vida. Agora é necessário “contar” essa vivência através da fotografia. Que venha então, o livro MARANHÃO PROFUNDO e a partir dele, muitos outros sonhos a realizar. (Texto Edemar Miqueta)


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