• Editor

São Pedro da Água Branca - MA

Atualizado: Abr 30

(16/09/2018)


Depois de duas semanas em casa e a manutenção da Valente realizada, está na hora de por o pé na estrada. Agora, o desafio é ainda maior. Só para variar partimos de Santa Catarina num domingo chuvoso e frio. Nossa jornada desta vez, começa em São Pedro da Água Branca. Aqui a nossa busca estava centrada nas praias de rios, formadas pelo deslizar das águas dos rio Tocantins, divisor das terras do Maranhão e do Tocantins. Contamos com o apoio cultural da prefeitura municipal, através da secretaria de cultura e turismo, porém, por força maior não tivemos nenhum guia a nossa disposição. Com base nos mapas da região, via Google Earth, fomos à “caça”. O percurso é bastante tranquilo. Encontramos diversas áreas que dariam ótimas imagens, mas ainda não eram o suficiente para Evandro. Essas coisas que só mesmo fotógrafo compreende. Ainda não dariam uma fotografia que fosse capaz de apaziguar o espírito “caçador” de um fotógrafo sedento por uma imagem de verdade.


Entramos por algumas comunidades às margens do Tocantins nesta busca, e nada! O lugar certamente tinha uma beleza, mas a quantidade de fazendas por todos os lados começava a nos preocupar. Mesmo nas praias que encontramos, a intervenção era tamanha que destoava totalmente com o nosso objetivo. O local recebe um público grande na procura pelos balneários e certamente que querem um mínimo de estrutura para que possam desfrutar de lazer com a família. Mas isso tudo não era o que Evandro estava buscando. Fomos adiante. Mais e mais fazendas, até que num determinado momento chegamos a uma propriedade de onde não era mais possível seguir, a estrada findava ali. Ao fundo uma casa que estava toda fechada, mas havia uma bicicleta à frente da varanda como se alguém tivesse acabado de chegar. Estava ali, paradinha, em pé, apoiada pelo pedal. Batemos palmas. Apenas os cães nos recepcionaram. Era preciso pedir autorização para adentrar e acessar morro abaixo, o Tocantins. Nada! Ninguém aparecia. Buzinar! Não gosto de fazer isso, mas naquela situação era o que restava a fazer. Nada! Pensei, devem estar escondidos, afinal não seria a primeira que isso acontecia. Ninguém… resolvemos fechar a “Valente” e ir atrás de nosso objetivo. Pulamos a cerca de arame e descemos até a praia. Evandro passou a fotografar, mas ainda faltava algo.


Eu gravei alguns takes tentando buscar o melhor do que a paisagem me mostrava. Valeu como registro, mas… não sei explicar. O lugar é bonito, porém a sensação de solidão era muito forte. Uma certa tristeza no ar. Talvez fosse mesmo o sentimento de estar invadindo um espaço do qual talvez não fossemos bem vindos. Não demorou muito, rio acima, surgiu uma canoa com um barulho bem conhecido, era uma rabeta (canoa de motor de pequena potência). A canoa veio em nossa direção. Chegou até a margem onde estávamos, cumprimentos desconfiados. Dela sai uma senhora carregando uma bacia cheia de roupas na cabeça, com uma destreza impressionante. Sobre as roupas, um papagaio. Eram o seu Abraão e dona Luíza, proprietários das terras invadidas.passada a primeira impressão (a nossa), explicamos o que estávamos fazendo ali. Gentilmente nos disseram para ficarmos à vontade e que ao final, passássemos em sua casa para conversar um pouco mais e seguiram em direção à morada. Nisso, já próximo a nós, era possível ver algumas nuvens bem carregadas e relâmpagos. Era certo de que não demoraria a chegar.


Com tantos relâmpagos e raios fiquei preocupado, afinal, estávamos numa área desprotegida e corríamos o risco de levar uma descarga nas cabeças. Evandro me disse para permanecermos um pouco mais, o “punctum” tão esperado estava se aproximando em forma de tempestade. O vento soprando cada vez mais forte. Na praia havia uma cabana coberta de palha, usada pelo seu Abraão como refúgio do sol, certamente em suas tarefas diárias de pescaria. O “caçador” de imagens estava tão empolgado com as composições que estava conseguindo, que não percebeu o quanto a tempestade havia se aproximado. Sem muito tempo, tivemos que correr e nos proteger embaixo da cabana. Uma chuva torrencial caia iluminada pelos raios como se fossem disparos de flashes vindos do céu. Uma mistura de beleza e pavor. A água era tanta, que a palha da cabana não suportava e fazia era escorrer por sobre nossas cabeças. A maior preocupação naquele momento, eram os raios, quando me dei por conta de que meu equipamento estava desprotegido. Como se eu fosse marinheiro de primeira viagem, não havia levado material impermeável para proteger as mochila da câmera. Apenas Evandro tinha a capa protetora que já está embutida na mochila. Creio que a tensão da invasão da propriedade me levou a isso, penso ser uma boa justificativa. Mas enfim, ali estávamos, o rio sumiu completamente sobre a tempestade torrencial. Não posso negar, era lindo de ver, mas não era possível registrar aquele momento. Ficamos encharcados. Em cerca de meia hora, a água parou de cair sobre nós, e ainda era possível ver a alguns poucos metros de nós, a lavadora de almas, seguindo e banhando a praia. Por sorte, meu equipamento ficou protegido, a mochila encharcou mas não o suficiente para molhar a parte de dentro. Evandro, mais que depressa, puxou da câmera e continuou a fotografar. Nessa altura, eu já havia desistido e resolvi me largar pra dentro do rio e aproveitar as águas quentes do Tocantins. A noite chegou e era hora de irmos. Chegamos até a “Valente” e guardamos todo nosso material. Nossas roupas ainda encharcadas, as de Evandro pela chuva e as minhas, além da chuva, pelo banho no rio. Pensamos em ir logo embora e nem incomodar o casal, mas eles pediram pra passar em sua casa, talvez fosse uma desfeita se não fôssemos. Timidamente fomos chegando, afinal, era só para uma despedida mesmo!

Já na porta da cozinha, que fica numa parte fora da casa, junto à varanda, dona Luíza, como se nos conhecesse há muito e veio nos receber com um sorriso amistoso dizendo: - Pensei que não viriam aqui! Já preparei a janta! Estava só esperando por vocês! Sério, surpresa é pouco para descrever. Seu Abraão já puxou das cadeiras. Sentamos e conversamos por um tempo. Da cozinha dona Luíza nos chamou pra nos servirmos junto ao fogão a lenha. É tudo muito simples, mas de coração, disse dona Luíza, já nos passando os pratos e talheres. Foi a primeira vez que tive a oportunidade de provar algo, que pode até parecer estranho, mas minha mãe criava apenas como ave ornamental, estou falando da Capote, ou como conhecida no sul, galinha-d’angola. Provei, aprovei e quero mais. Com os cuidados e temperos no preparo de dona Luíza, sem dúvida, tornaram tudo ainda mais especial. Após o jantar, conversa vai, conversa vem, fomos convidados a pernoitar por ali. Seu Abraão e dona Luíza insistiram, pois nos prontificamos a voltar no outro dia logo cedo para fotografar. Que besteira fizemos, decidimos ir para a cidade. Não sei porque “raios” tomamos uma decisão dessa. Faltou discernimento e mais atenção de nossa parte. Na “Valente” tínhamos tudo o que precisávamos para poder passar a noite, inclusive, roupas limpas e secas. Estávamos na Fazenda Taquari, cerca de 50 quilômetros de São Pedro da Água Branca, e o trajeto todo de piçarra e em algumas partes, areia. No meio do caminho com destino a cidade foi que refletimos sobre a besteira que havíamos cometido. Mais, muito mais atenção numa próxima oportunidade. Não por conta da distância, mas pela perda em conviver por mais alguns instantes, com uma família tão gentil e acolhedora.

No dia seguinte voltamos à Fazenda Taquari. Não encontramos seu Abraão e dona Luíza, pois haviam comentado que sairiam cedo para trabalhar na outra propriedade no outro lado do rio, no Tocantins. Descemos até a praia, creio que a situação da noite anterior nos afetou de maneira negativa. Não rendeu boas fotos, não houve um “punctum”. Decidimos que já era hora de partir e naquele dia deixamos São Pedro da Água Branca com um certo vazio, que não queremos repetir.

(Texto Edemar Miqueta)



0 visualização
  • Black Facebook Icon
  • Black Instagram Icon

© 2019 Evandro Martin | SYNC Imagens